sexta-feira, agosto 01, 2014

O que penso

E se o padeiro colocasse à venda, sempre, tudo o que produziu? Provavelmente não seria boa ideia, pois nem tudo dá certo. Ele precisa selecionar as melhores receitas e produtos para expor.
E se a fábrica de calçados colocasse à venda tudo o que projetou e tudo o que o produziu? Perderia clientes em não tão muito tempo.
E se o repórter de televisão utilizasse tudo o que gravou? Bem, também não parece ser boa ideia. É melhor colocar no ar aquela que traz o melhor conteúdo, na melhor forma.
Se a mãe ou o pai falassem ao filho tudo o que pensam quando ele comete um erro, ou não aprende o que poderia ter aprendido? A consequência possível desta atitude os faz ponderar o quê e como falar, para auxiliar a crescer.

E se o seu melhor amigo, seu namorado(a), seu chefe ou seu vizinho falassem tudo o que pensam, as relações seriam melhores? Ou nem tanto?

Quem de nós já não ouviu, ou utilizou, a expressão “eu falo o que penso”? No sentido de não medir nem filtrar as palavras, “falar com sinceridade”. Às vezes, até mesmo exibimos como uma virtude-troféu, Ela pode vir acompanhada também de ‘eu sou sempre sincero’ e ‘eu sou assim mesmo’.

Pensando bem, por que deveria ser assim? É possível que eu pense  coisas boas? Todas as nossas opiniões, especialmente quando expressas através de sentimentos de momento, e não raciocínios embasados, são sempretão coerentes e corretas a ponto de o mundo não pode ser privado delas?

Para piorar, estamos, cada vez mais, nos submetendo à velocidade em detrimento da segurança. A partir disso, sem checar fatos, fontes, formas e frases,  respondemos falamos, digitamos e gravamos em vídeo ‘o que pensamos’. Mas...tudo o que pensamos é útil, aproveitável, sensato, bom para ajudar o próximo?

Obviamente, não. Tem muita coisa que achamos, sentimos, definimos, divagamos, e até raciocinamos, que são produtos que não dá pra vender..Precisam ser descartados, ou melhor trabalhados, para gerar algo mais consistente, saboroso e que, de fato, vá contribuir.

Nem mesmo Jesus Cristo falou tudo o que pensava. Logo Ele, o único que só pensou e fez o que valia a pena. Diante de Pilatos, por exemplo, quando poderia ter falado todas as verdades contra os hipócritas que o condenavam, silenciou. Também na cruz, durante seis horas, se limitou a 7 frases. E ali estava realizada a obra mais importante em que alguém pode pensar. A fala mais eloquente foi a de um coração cheio de amor pelo ser humano

Amor que pode ser vivenciado, pela fé, na forma tanto de palavras pensadas como de pausas necessárias. Em gestos que aproximam. Em olhares que comunicam. É claro que podemos, sim, falar o que pensamos (não vivemos em uma ditadura,graças a Deus). Mas sempre podemos pensar se, precisamos, mesmo falar tudo. Fica irresistível, então, concluir que, melhor do que falar o que penso, é pensar no que falo.

E que há momentos nos quais um bom silêncio comunica com clareza tudo o que precisamos dizer.


(P. Lucas André Albrecht)

Postar um comentário