Aceitação que transforma

 

Vivemos em um tempo em que a palavra aceitação ganhou um lugar de destaque. Aceitar sentimentos. Aceitar emoções difíceis. Aceitar pensamentos sombrios. A proposta costuma vir acompanhada de um convite à não condenação: não julgue o que você sente, apenas reconheça, observe e deixe passar.

Há pesquisas que mostram benefícios psicológicos nesse caminho. Pessoas que não brigam com suas emoções parecem reagir melhor ao estresse. Há menos desgaste, menos explosão, menos culpa imediata. E, nesse sentido, não há como negar: existe algum valor nisso.

Mas, ao ler com mais atenção esse tipo de proposta, algo começa a incomodar. Não no campo da psicologia, mas no campo mais profundo da vida humana: o lugar onde lidamos com culpa, sentido, perdão e esperança.

Porque, no fim das contas, quando tudo se resume à aceitação, o peso recai sobre a mesma pessoa de sempre: eu. Sou eu quem precisa lidar com o que sinto. Sou eu quem precisa sustentar minhas próprias sombras. Sou eu quem precisa encontrar forças para conviver com aquilo que, muitas vezes, não escolhi sentir.

E a pergunta inevitável surge:
o que acontece quando essa força acaba?

A Bíblia apresenta um caminho diferente. Não um caminho mais fácil, mas um caminho mais verdadeiro. Em vez de apenas aceitar, a Escritura nos convida a confessar. E confessar não é o mesmo que observar sentimentos de forma neutra. Confessar é chamar as coisas pelo nome. É reconhecer que nem tudo o que sentimos é apenas parte da experiência humana neutra. Há medo que nos governa. Há ira que nos domina. Há culpa que nos pesa. Há pecado que nos atravessa.

E isso muda tudo.

“Quem encobre os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia.”
(Provérbios 28.13)

Confessar não é afundar na culpa. É trazê-la para a luz. É reconhecer que não damos conta sozinhos — e justamente por isso não precisamos dar conta sozinhos.

Aqui está a grande diferença: a aceitação moderna termina em nós mesmos. A confissão bíblica termina em Deus.

A aceitação pode aliviar.
O perdão liberta.

A Escritura não nos ensina a fazer as pazes com nossa escuridão. Ela nos ensina a levá-la até a cruz. Ali, Cristo não apenas “tolera” o que somos. Ele carrega. Ele perdoa. Ele purifica. Ele restaura.

“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.”
(1 João 1.9)

Perceba o movimento: não somos deixados sozinhos com nossos sentimentos mais profundos. Não somos chamados a reunir forças internas suficientes para aceitá-los indefinidamente. Somos convidados a colocá-los nas mãos de Alguém maior, mais forte e mais fiel do que nós.

Alguém poderia dizer:
“Mas no fim das contas, não dá no mesmo? Aceitar ou confessar?”



Não.
Aceitar não salva.
Ser perdoado, sim.

A aceitação nos deixa olhando para dentro.
O perdão nos levanta e nos aponta para fora de nós mesmos, para Cristo.

E aqui é importante dizer algo com cuidado: chamar certos sentimentos de pecado não gera culpa doentia, desde que não se pare na confissão. O problema não é confessar. O problema é confessar sem ouvir o anúncio do perdão. O Evangelho nunca nos deixa presos na culpa. Ele sempre nos conduz à absolvição.

A proposta secular nos pede força para conviver com a escuridão.
O Evangelho nos convida a entregá-la Àquele que já a venceu.

“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito firme.”
(Salmo 51.10)

Não precisamos aprender a aceitar melhor nossa culpa.
Precisamos ouvir que ela já foi tratada.

E isso não é técnica emocional.
Não é método psicológico.
É graça.

É o Cristo que nos encontra exatamente onde estamos, não para nos deixar ali, mas para nos conduzir à vida.

--------------

Versao curta: 

Vivemos num tempo em que muito se fala sobre aceitar tudo o que sentimos. A ideia parece simples: não julgar emoções difíceis, apenas reconhecê-las e deixá-las passar. Há até estudos que mostram benefícios psicológicos nesse tipo de postura.

E sim, há algo de verdadeiro nisso.

Mas, ao ler mais atentamente, algo chama a atenção: quando retiramos Deus da equação, a aceitação acaba recaindo inteira sobre nós mesmos. Sou eu quem precisa sustentar minhas próprias sombras. Sou eu quem precisa ter força suficiente para conviver com aquilo que me fere por dentro.

E o que acontece quando essa força falha?

A Bíblia apresenta um caminho diferente. Um caminho mais honesto e, ao mesmo tempo, mais leve. Em vez de apenas aceitar, somos convidados a confessar. A nomear aquilo que nos habita como realmente é: medo, ira, culpa, pecado. Não para sermos esmagados por isso, mas para sermos libertos disso.

“Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar.”
(1 João 1.9)

A aceitação que transforma o coração não nasce da nossa capacidade emocional, mas da cruz. Ali, Cristo não apenas tolera nossa escuridão. Ele a carrega. Ele a perdoa. Ele a vence.

Aceitar emoções pode aliviar por um momento.
Ser perdoado muda tudo.

Quando trago minha vida diante de Deus, não fico sozinho com o peso do que sinto. Recebo algo que não consigo produzir: paz. Um coração renovado. Um espírito firme. Não porque entendi tudo, mas porque fui acolhido por Aquele que me conhece por completo.

Não precisamos aprender a conviver melhor com a nossa culpa.
Precisamos ouvir que ela já foi tratada.

E isso não é uma técnica.
É Evangelho.

Comentários

Postagens mais visitadas